Consume Me: A Personificação da Criatividade Indie – Review

O cenário de jogos independentes tem crescido cada vez mais a cada ano que passa, tanto na quantidade de lançamentos quanto no escopo dos projetos, na variedade criativa e em diversos outros aspectos. O ambiente em torno desse tipo de jogo é um campo florido de possibilidades, trazendo um frescor muito bem-vindo como alternativa para uma indústria cada vez mais corrosiva das grandes empresas, vulgo Triple A.

Obviamente, devido à quantidade de lançamentos, você vai encontrar muito jogo de qualidade duvidosa. Porém, Consume Me é um bom exemplo do que podemos colher de diferente nesse universo diverso que são os jogos indies e que vale a pena conferir.

Introdução

Consume Me é um jogo de simulação, puzzle e com pitadas de estratégia, lançado em setembro de 2025 para Windows, macOS e iPhone.

O jogo é basicamente uma semibiografia. Acompanhamos um recorte da vida da própria criadora, Jenny Jiao Hsia (não é exatamente um retrato 1 para 1, então certos acontecimentos foram adaptados para o jogo), passando pela infância até o começo da fase adulta.

A criadora Jenny Jiao Hsia e sua contra parte no jogo

A história começa no verão de 2011. A protagonista, Jenny, está empolgada com as possibilidades do que poderá fazer nas férias de verão. No momento em que está tomando café da manhã, sua mãe aparece e começa a fazer comentários de como ela está comendo demais, que está acima do peso, comparando a filha com uma conhecida e exigindo que ela “seja mais como ela”. A partir daí, o jogador acompanhará a rotina de Jenny tentando fazer dieta enquanto lida com os percalços da vida.

Falando da jogabilidade, a perspectiva do jogo se assemelha à de uma tela de celular, no formato vertical. O jogador precisa completar diversos tipos diferentes de minigames para avançar a história, porém há dois tipos mais importantes: os relacionados à dieta e os de aumento de status.

Dia à dia

Assim como a maioria dos jogos da série Persona, o jogo possui um sistema de calendário. Há diversas opções de atividades para escolher e cada uma delas consumirá o tempo do jogo. Assim que uma atividade é finalizada, o tempo avança e um novo dia surge, até chegar a uma determinada data.

Todo começo de dia, você precisará montar a refeição referente à dieta que Jenny está fazendo. Como em um jogo de Tetris, peças de comida aparecem na tela e precisam ser encaixadas no grid para atingir o valor necessário da barra de fome da personagem.

Atingir a quantia certa gera bônus; a mais traz debuffs, e comer de menos também tem suas desvantagens (apesar de menores).

Momento do jogo onde a personagem precisa comer e o jogador precisa selecionar o que ela irá comer

Outro ponto importante são as atividades que alteram os status da personagem.

Existem três barras de energia. É a partir delas que você vai avaliar quais atividades pode ou não fazer.

A primeira barra representa a felicidade, a segunda, a energia, e a última, a fome.

Cada atividade consome uma quantidade dessas barras; pode ser que uma diminua muito enquanto aumenta outra, e vice-versa.

Existem também várias skills que influenciam no que você pode executar no jogo e, como citado anteriormente, atividades que consomem tempo, mas aumentam atributos específicos.

Exemplo: levar o cachorro para passear aumenta a skill de tarefas domésticas e a aptidão atlética. Essa atividade consome energia física, mas aumenta a barra de felicidade.

Charme

Consume Me consegue chamar atenção pela sua premissa e pelo seu visual único. Em uma indústria lotada de jogos indies, com centenas de lançamentos por dia, esse é um fator crucial para criar ao menos curiosidade no público a respeito da obra.

Eu fui uma dessas pessoas e, apesar das expectativas, estava pensando que seria uma visual novel simples e curtinha. Porém, encontrei um jogo narrativo com elementos de sobrevivência e administração que combinaram muito bem.

Cada cena, cenário e ambientação possui uma arte única. É um verdadeiro carrossel de imagens que ilustra muito bem as atividades e opções disponíveis para o jogador. Uma das minhas favoritas é a opção de “vagabundear” na cama, cuja representação mostra a personagem literalmente derretida no chão. É extremamente eficiente a forma como o jogo representa visualmente os minigames e as interações da protagonista com o mundo ao seu redor.

É um jogo cheio de charme. Outro ótimo exemplo é o minigame de leitura: a personagem fica com o livro à sua frente, contudo, o olhar insiste em desviar das páginas, e você, jogador, precisa manter o foco para progredir na leitura.

Mini game do jogo consume me, a personagem tentando ler, mas fica desviando o olhar
Mini game de leitura em consume me

Outro cenário interessante acontece ao finalizar o minigame de exercícios. A personagem faz uma pose toda musculosa, representando a satisfação e o objetivo (idealizado) de estar em ótima forma física.

Combinação de fatores positivos

O que fortalece muito a experiência de Consume Me é, certamente, seu visual repleto de carisma e cores vibrantes. Cada detalhe no ambiente, as reações da personagem e a dinâmica dos minigames demonstram um capricho notável. Os desenvolvedores conseguiram criar algo diferente que, apenas de bater o olho, você sabe de onde é aquele personagem ou mesmo cenário.

A trilha sonora do jogo também merece elogios. Os efeitos sonoros ao selecionar, cancelar ou aceitar alguma opção, sem contar a trilha sonora em si, são muito agradáveis e combinam perfeitamente com cada momento do jogo.

Passagem para a vida adulta

Como o jogo é baseado na história de sua criadora, o desenrolar da narrativa (principalmente devido às atividades que precisam ser realizadas para progredir no game) torna a jornada engajante, fazendo o jogador querer descobrir como tudo termina e torcer para que dê certo para a personagem.

Personagem "conversando" consigo mesma no espelho. Questionando sobre suas tarefas

Apesar da premissa ser batida, já que diversas outras obras (principalmente americanas) gostam de retratar esse período e suas questões, como o videogame é a mídia superior, o jogador ter que realizar as atividades e, de certa forma, participar ativamente da vida da personagem certamente contribui para esse engajamento.

Como jogo, a estrutura diverte. Existem diversas atividades que podem ser realizadas dependendo da prioridade que o jogador escolhe e, a cada capítulo, é introduzida alguma mecânica nova ou desafio, consequentemente deixando a experiência menos monótona e repetitiva.

Elaboração sobre o tema

Consume Me apresenta-se principalmente como um jogo que irá debater obesidade e distúrbios alimentares. Eu estava pensando que esse fator seria crucial do começo ao fim. Mesmo que o elemento do minigame da dieta esteja presente e, de fato, seja importante durante o jogo inteiro, não há muito desse tema sendo abordado a fundo. Ele serve mais como plano de fundo para parte da história e para aspectos do gameplay que, apesar de serem implementados de uma forma que agrega valor, não aprofundam esse assunto.

O jogo aborda outros assuntos além do principal, que é falar sobre dieta e emagrecimento, que se encaixam muito bem , porém, na reta final, ficou uma sensação um pouco estranha: o assunto principal virou secundário (quase inexistente) e não há uma conclusão para ele.

A protagonista de Consume me Jenny e sua Mãe

Essa é apenas uma etapa com a qual a personagem precisa lidar junto aos outros problemas de sua vida (dieta, atividades da escola, provas, exames para a faculdade, tarefas domésticas, manter uma vida social, procurar emprego, cobranças da família etc.).

O que, por um lado, se encaixa no contexto da história.

Precisamos lidar com tantas questões ao mesmo tempo, sem conseguir focar especificamente em uma de cada vez; isso faz parte da vida, e o único jeito é seguir em frente. É uma sensação de angústia e ansiedade que só a vida o consegue proporcionar e esse jogo consegue transmitir isso de uma forma muito eficiente.

Só acho estranho esse foco em vender o jogo de uma forma e o resultado final não ser exatamente isso.

Qualidade independente

Nunca é demais celebrar os jogos independentes. Eles representam o potencial que a mídia dos videogames é capaz de produzir. Consume Me é um ótimo exemplo disso. Caso esse tipo de jogo se encaixe no seu gosto ou interesse, fica aqui a minha recomendação e o trailer:

Você encontra Consume me na Steam por R$46,99, no itch.io por US$ $14.99 e na Apple Store por US$ 9,99.

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Espero que tenham gostado desta review, caso tenha alguma dúvida ou queira discutir a respeito do jogo, manda aí nos comentários! Não esqueça de compartilhar o post que ajuda demais a gente.

Obrigado por ler e até a próxima.

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