Komi Não Sabe Se Comunicar – Sabe, sim! | Review

Personagem Komi escrevendo em um quadro negro

Um dos clichês mais comum encontrados em obras japonesas é do personagem que não consegue socializar; sente-se acuado e desesperado ao ter que conviver em um ambiente que atravessa os limites estabelecidos pela porta de sua casa. No decorrer da história isso vai mudando, laços de amizade são feitos e tudo encaminha para um final feliz e esperançoso.

A quantidade de mangás e animes que abordam este tipo de premissa, certamente você e eu conseguimos contar com todos os dedos da mão sem precisar pensar por muito tempo.

Komi não sabe se comunicar é exatamente o que você espera, até o momento que ele não é, apesar de não deixar de ser. Siga com o review que isso se tornará mais claro.

 

Sinopse

Komi não sabe se comunicar é um mangá de Tomohito Oda, publicado na revista Weekly Shounen Sunday entre 2016 e 2025, do gênero comédia, romance e slice of life. No total a obra possui 37 volumes com 500 capítulos. Há duas adaptações em anime lançadas em 2021 (Komi Can’t Communicate) e 2022 (Komi Can’t Communicate Season 2).

Estudante do ensino médio com fobia social, Shoko Komi sonha em conseguir fazer amigos, porém todos na escola pensam que seu comportamento não é devido a problemas de comunicação, e sim, por ser uma pessoa descolada e reservada.

Komi tentando falar algo, porém tremendo e falando apenas a silaba "ho"
Komi tentando falar uma palavra

Além disso, sua beleza estonteante afasta qualquer tipo de interação, pelo motivo dos demais estudantes não acharem ser “dignos” de nenhuma atenção por parte dela. O que complica ainda mais sua situação.

Até o momento em que ela conhece Hitohito Tadano; seu primeiro amigo e a pessoa que se compromete a ajudá-la a alcançar seu objetivo: fazer 100 amigos.

 

Entre o absurdo e o tosco

Assim como outras obras que utilizam este tropo, a maioria são histórias de comédia com pitadas de drama e romance. Komi também segue dessa forma, entretanto, o tipo de comédia apela um pouco mais para o meu gosto pessoal.

Nichijou e Azumanga daioh são ambos os maiores exemplos desse estilo. Um tipo de comédia que vai além da quebra de expectativa, o exagero e “bobajada” se juntam para formar algo idiotamente incrível. Muito difícil de prever o que pode acontecer.

O estilo de comédia de Komi flutua bastante entre o simples e o absurdo. Uma personagem anda usando partes de armadura, comportando-se como uma leal cavaleira. Outra sequestra um personagem e o ameaça de morte caso não se afaste de sua amada (sociopata).

Cada personagem tem características específicas que formam uma piada: personagem que se perde toda hora, muito competitiva, se veste e fala como bebê, tem muitos irmãos, perfeccionista, etc.

Personagem Jo Ashitano pedindo para ser amiga da Komi.
Jo Ashitano, nome referente ao personagem de Ashita no Joe

Olhando para o todo, o mangá é realmente engraçado, muitas vezes bem inventivo em suas piadas, terá suas partes sem graça, porém, no geral, o saldo é positivo. Principalmente caso você leitor goste deste tipo de humor.

 

Um pouco desnecessário

Pode ser insignificante, mas algo que incomoda muito na comédia de Komi não sabe se comunicar é a constante fórmula de muleta que o autor utiliza. 80% ou até 90% do tempo, as piadas terão explicação.

Essa ferramenta provavelmente é de fato útil para auxiliar o público mais novo que lê/lerá o mangá, levando em conta também que sua demografia contempla jovens. Apesar disso, não é nem um pouco difícil compreender o que está acontecendo, os acontecimentos são bem explícitos, por isso, toda hora ficar explicando só faz parecer que o autor (ou a editora) acha que os leitores são burros.

Isso não é exclusivo desse mangá, é algo até comum em histórias de comédia japonesa, mesmo assim, importuna.

O autor até criou um jeito mais criativo de fazer isso, pois existe, literalmente, um personagem que serve como “nota de rodapé”. Ele fala sempre com asterisco, sua função é explicar e contextualizar o leitor do que está acontecendo. Ao menos essa ideia é de fato legal.

Komi tentando agradecer uma comissaria de bordo

Diversidade no elenco

O objetivo final de Komi é alcançar a marca de 100 amigos e, para isso, terão que existir 100 personagens para virar amigos dela.

Apesar da existência de cada um vir de uma característica para fazer-se uma piada. Em sua maioria são personagens com um pouco mais de dinamismo, não apenas pela piada. Aqueles com mais destaque ganham mais camadas, tendo conflitos mais complexos.

A variedade integra bastante para que a história não caia na mesmice, não só pela personalidade de cada um, mas também pela sexualidade.

Talvez este seja um dos mangás populares que possui mais diversidade. Personagem não binari, bi, lésbica, gay, pansexual; tem até cross-dressing. Visualmente são diferentes entre si, cada um bem único.

Em suma: tem muito personagem, a história precisa deles e, em sua maioria, o autor consegue entregar algo bom.

Deixo aqui meu destaque para a Tadano Hitomi (Irmã do Hitohito Tadano). Ela traz um caos delicioso, as partes em que ela tem destaque foram as que eu mais dei risada.

 

O progresso é um processo

Eu odeio personagem não expressivo. O tipo que não esboça sentimentos, não tem reação a nada, somente aquela cara blasé que tira qualquer empatia que eu possa ter. Ao conhecer Komi não sabe se comunicar pela primeira vez, pensei que este seria o caso. E, para minha felicidade, não é nem um pouco.

Dualidade entre como as pessoas veem a Komi e como ela esta se sentindo

Independente de sua falta de comunicação verbal, Komi é extremamente expressiva. Suas reações são marcantes, seu rosto é desenhado majoritariamente das vezes bem cartunesco; quando feliz, fica com orelha de gato, quando nervosa, fica com várias linhas distorcidas, olho ondulado. Durante todo o mangá ela é representada de múltiplas formas para mostrar o que está sentindo.

Mudar é um processo longo e árduo, não acontece da noite para o dia. Aos poucos Komi faz mais amigos, fala mais palavras, enfatiza o que sente, seu desenvolvimento é feito à conta gotas, porém perceptivo. Todo o trajeto da personagem é bem feito, você torce por ela, se sente contente em observar sua evolução.

O mangá como um todo são adolescentes com trejeitos estranhos, lidando com expectativas, tendo que se enturmar e terminar o ensino médio. Um reflexo sobre essa época da vida, obviamente de maneira lúdica e exagerada, porém que apresenta uma visão otimista.

 

Tamanho intimidador

Tomohito Oda decidiu que seu mangá acompanharia por completo a vida colegial de sua personagem principal. Por um lado, apresentar 100 personagens e desenvolver a personagem de maneira natural e palpável, essa escolha faz sentido. Entretanto, começar a leitura agora é um desafio.

Pegar um mangá com 500 capítulos pode ser intimidante; com 500 capítulos você consegue terminar no mínimo 3 outros mangás, decidir ler Komi não sabe se comunicar é um investimento de tempo que requer um certo interesse prévio.

Sinceramente, a obra poderia sim ser menor, muito poderia ser cortada e não faria falta. Personagem que não precisa de tanto destaque ou piadas repetidas. Isso que eu não falei ainda de outro aspecto: o romance.

 

Metade comédia, metade romance

Em determinado momento do mangá, a comédia compartilha holofote com o romance. Sendo construído aos poucos e tomando forma quanto mais a história avança. Existe uma sensibilidade na forma que o autor cria a relação entre os personagens, melhor até do que muito mangá no qual esse é o foco. Entretanto, passa uma sensação estranha, estar acompanhando algo de comédia que muda muito seu foco dependendo do que o autor quer mostrar.

Tadano dando um empurrãozinho na Komi para ela conseguir falar com alguém

Sem apontar com detalhes, para evitar spoilers, tem uma etapa específica da história que começa de fato uma virada para essa dualidade. Por exemplo, 3 capítulos desenvolvendo uma situação engraçada, depois 4 capítulos focado no romance. 2 apresentando mais de um personagem, 1 no romance. E assim vai de maneira não ortodoxa.

Poderia ser simples, mas o autor também aprofunda questões relacionadas ao romance que tem na obra. O que de forma alguma é algo ruim, como citei, é até mais bem feito que muitos outros mangás por aí. Também tem o fator de conforto, você se acostuma com aquele ambiente e personagens, se torna um lugar “aconchegante” para acompanhar a vida desses alunos. A questão é que isso aumenta ainda mais a quantidade de capítulos.

 

Melhores caras e bocas dos mangás

Não posso deixar de destacar o quão bonito é Komi não sabe se comunicar. Tomohito evolui muito durante a publicação, o desenho da Komi no começo da história, comparado ao final, é extremamente perceptível a evolução. Muito mais detalhado e angelical.

Personagem Yadano com cara psicopata

Quando o personagem necessita de traços fortes, feição amedrontadora, ele alcança com esmero. Inclusive, como comédia, este mangá impressiona na qualidade das expressões faciais para tal finalidade. Eu nunca vi nada igual, muita variedade e criatividade na composição do rosto. Caretas que eu nunca imaginei ser possível, mas plausível, e que alcança seu objeto: ser engraçado.

Yamano tendo desejos fortes por Komi

Character design é excelente, muito variado para cada personagem. A dimensão entre um cara bombado, garota fofa, esportista, atriz, , etc. Todos são bem representados. A arte de Komi é de fato bem única, você bate o olho e sabe da onde vem.

Personagem fazendo cara insinuante

 

Honesto e divertido

Komi não sabe se comunicar é divertido. Não é revolucionário, não tem muitos personagens carismáticos, não reinventa a roda. Ele é honesto, seu melhor aspecto é acompanhar o desenvolvimento da personagem principal, junto com seu humor nonsense (quando funciona). Caso seja o seu tipo de comédia, merece estar no seu radar.

O mangá é publicado pela Panini aqui no Brasil, o preço de capa varia entre R$: 37,90 e R$: 40,90. Você encontra na loja oficial da panini ou em lojas de varejo, como a Amazon.

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Obrigado por ler e até a próxima.

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